quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Hino de mulher


Eu nasci para presidente
e não para primeira dama
Rapaz vê se me entende, 
você que diz que ainda me ama
Admito você é lindo,
mas não muito legal
Por trás desse sorriso
esconde algo tão boçal
Meu talento é este mesmo
eu vim para debater, 
ecoar minha voz no vento
Nem pense em me deter
Perdoe se o iludi, às vezes acontece
esse teu rosto bonito, confesso que me mexe
Qualquer dia telefone, podemos nos falar
espero suas novidades para me contar
Não chame de egoísmo, 
afinal não é nada disso
Simplesmente não consigo conviver com teu machismo
Não tenha esperança
é só a última dança
Um adeus civilizado
de quem esteve ao seu lado.
Te desejar sucesso será meu gesto generoso,
palavra de quem se fartou com teu desgosto

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Vento no Litoral

Era fim de tarde. Final do expediente. Hora de ir para casa, mas antes o rapaz resolveu ver o mar que conhecera pela primeira vez ao lado de sua amada. Inesquecível, se lembrou.

Chegando às areias que não se sabe se eram de Ipanema, Leblon ou Copacabana (ele nunca soube distinguir), o jovem pôde sentir o vento forte que percorria o litoral. Resolveu subir nas pedras para esquecer, depois entrou na água e deixou uma onda lhe acertar. Foi tudo como na primeira vez.

Caiu em si, se enxugou com a camisa e seguiu em frente para o conforto do lar. Ao adentrar em sua casa percebeu tudo tão distante e sentiu em cada cômodo daquele lugar um pouco do sorriso da menina que amava e que há tempos ali não mais pisava. “Dos nossos planos é que eu tenho mais saudade”, balbuciou.

Também se recordou de como fazia para descobrir de qual praia determinado grão de areia pertencia. Funcionava assim: ele olhava nos olhos da garota e perguntava. Ela sorria, respondia e então os dois se beijavam como se a pergunta tivesse sido um pedido de casamento. Na verdade, o lugar pouco importava, ele queria beijá-la. Os olhos de ambos denunciavam a alegria de estarem juntos.

Aqueles olhos que juntos se voltavam sempre na mesma direção, agora estão distantes, culpa dele. Com saudades, ele se questionava enquanto observava uma foto da menina: aonde está você agora além de aqui dentro de mim? Ela fazia falta. Ele não tinha notícias.

Seu coração chorava, sentia-se pequeno. O pequeno menino queria crer que agira certo ao renegar todos os planos que sempre sonhou ao lado dela. Apegou-se à tese de um médico canastrão chamado Tempo. Diziam que ele curava tudo, mas foi o mesmo quem errou.

Ainda parado na porta da sala, segurava a camisa que havia ganhado de sua grande paixão e pensava em ler o livro chegado pelas mãos da mesma pessoa. Então, fugindo das lembranças, correu para a cozinha tomar um café... todas as xícaras foram presentes da menina. “Vai ser difícil sem você, porque você está comigo o tempo todo”, disse em voz baixa.

Observador que é, o jovem agora voltou seus olhos para o espelho e, apesar de toda a barba e os castigos de um dia de trabalho, pôde perceber que ali ainda havia de existir aquele menino que sempre gostou de ser, mas que o canastrão médico Tempo o fez esquecer.

Lembrou-se novamente do mar, uma das tantas coisas que conheceu a lado dela, e percebeu que era bobagem se entregar à frustrada decisão que havia tomado, continuar com isso era uma asneira. Não se sentia bem e decidiu reviver o garoto que sempre quis ser.

Pode ver o quanto havia sido fraco, covarde e o quanto era dependente dela. Sem ela, suas decisões o levaram ao desespero. Sentia-se sem um braço... na verdade, sem coração. Precisava dela porque sabia que ela era a única pessoa em quem podia confiar, viu que sem ela estaria condenado às lembranças de uma vida com saudade e não haveria de existir sentido a palavra Família.

Mas, para completar sua história e assim reviver o menino que se perdeu no Tempo, o jovem precisa dela. Ele reconheceu seu erro e pediu ajuda ao seu grande amor para completar o conto... Com medo e triste, mas ao mesmo tempo decidido, perguntou a ela se poderiam escrever a quatro mãos o final da história. Só que nem tudo era simples como o jovem imaginava.

''Tá tudo bem''. Ela repetia para si mesma. Mulher é assim, quando quer acreditar simplesmente acredita. A afirmação dentro da cabeça , que por sua vez estava a mil, era dicotômica: o universo virou, mas Deus sabia aonde ela iria se encaixar.

Foi assim que se passaram os meses. Coisa típica do sexo absolutamente nada frágil, a moça teve passo firme. Firmeza nos projetos, nas amizades e, sobretudo, no fato de nunca criar expectativa, nunca depender, apenas caminhar. ''Mesmo que nada mude, vou continuar contigo'', repetia toda vez que chamava Deus.

E na lógica do ''tô contigo e não abro'', o Altíssimo retribuía o esforço aos poucos. Alguns sorrisos com a turma, esperança de se mudar para Niterói, de conhecer alguém especial bem longe, ou bem perto, até chegou a elencar possibilidades. Redescobriu o valor da família, do próximo, da fé.

E na hora de dormir? Muitas noites foram um tormento.  Garganta atada, travesseiro encharcado de lágrimas e gritos absorvidos. Ninguém podia ajudar. Isso era para se passar sozinha. A saída? Conversar com Deus até cair no sono. Ser sincera. ''Me faça dormir, preciso de paz''.

A coisa complicava mais quando estava na internet. Tantos amigos, tantas informações para se pedir, tantas fotos a serem descobertas. ''Não. Não fui feita para isso''. Surpreendeu a si mesma, sobretudo a si mesma. Ninguém poderia imaginar de onde saía tamanha determinação.

Contudo, vale ressaltar que determinação não é sinônimo de aminésia. Às vezes um sonho, um lapso, um lugar, até mesmo uma xícara vinha lembrar. Como ela desejou conseguir odiar, conseguir nunca ter existido. Sem superdimensionamento. Desejava não precisar amar. ''Se for pecado, deixa eu amar outro então'', blasfemou.

Dentre as coisas mais tristes estava  admtir frase indigesta proferida por um grande amigo. Um primo que chamava de ''papi'' disse uma vez que ''nada é para sempre e ninguém é de ninguém''. Ela sempre achou a afirmação um absurdo, um despautério, desde que a ouviu quando tinha uns 15 anos. ''Será que o papi está certo? Não admito!"

Não admitir foi boa estratégia. Dizem que somos o que pensamos...Pois bem, retorna-se ao raciocínio: mulher é assim, quando quer acreditar simplesmente acredita. E a moça realmente acreditava que o papi não tinha razão, apesar de se flagrar remoendo a conversa.

Em uma viagem para Goiás, finalmente despertou. O lugar não visto há muito tempo, os familiares distantes agora tão próximos e o clima fraternal geraram um conforto bastante interessante. ''Se ele estivesse aqui, talvez me fecharia para tudo. Ficaria presa, não enxergaria o que tenho''. Serena e por quê não, feliz? Essa era a sensação.

O regresso teve direito à conexão na casa do cunhado até retornar com a irmã para o Paraná. Novamente, sem esperar absolutamente nada, o celular trazia de volta o que tinha se tornado pesadelo. Não conseguiu conter a mensagem e contou à irmã. Estava surpresa e triste. Tristeza multiplicada infinitamente, sem exageros.

Quer dizer que além de toda a crueldade já sentida houve outra? Sentiu-se violada. Foi como ruminar os abraços, os carinhos, os sussurros e os beijos. Ah, os beijos! Quanta amargura. Tudo o que sentia como extensão dela remetido a terceiros abraços, terceiros carinhos, sussurros e beijos.

Ódio maior foi descobrir que a tese elaborada falhou. ''Se eu soubesse que esteve com outra, eu o odiaria tanto que seria bom. Esqueceria de vez''. Sorte que não se tratava de uma tese de doutorado. Não chegaria nem à sombra do título. Para seu espanto, o amor conservara uma fatia muito pura e ao mesmo tempo muito frágil dentro dela.

Pedacinho de amor que foi somado ao medo, ao remorso, ao orgulho, à decepção, à vergonha diante das outras pessoas, à desilusão. No entanto, ele soube usar brechas para alimentar o que tinha sobrado. Dizer que ele foi quem passou a não dormir, a clamar a Deus pelo sono, a desejar não existir fez com que a moça refletisse sobre como se sentiria ao lidar com o ''nunca mais'' outra vez.

Foi então que entendeu. Mesmo sem merecer, o rapaz contou com as orações da jovem. ''Deus, não o peço para mim, mas peço para que o guarde, para que lhe mostre o caminho''. Ela mesma não acreditou que pudesse ser isso, uma prece atendida. O retorno era algo tortuoso e dolorido. As histórias de amor nos livros e filmes não são assim.

Não são mesmo. A vida é. A vida é cheia de provas. Prova de que o amor ainda existe e vence tudo, ela se arriscou a terminar um conto com ele e anda escolhendo vestidos de noiva. Por sua vez, o rapaz ergueu uma casa e sai por aí anunciando festa, filhos e um lar enquanto os dois passeiam juntos na praia.

domingo, 11 de março de 2012

O que quase não se diz (por aqui)

Um melindre sem muita explicação quase sempre me priva de dizer. Acredito que te faço saber, querido. Mas como aquela expressão que você usou recentemente, aqui fica uma ''pagação de mico". Essas rimas ruins não foram propositais. É meia-noite e estou esgotada por conta do plantão de notícias. Explorar sinônimo é função que meu cérebro só vai reativar pela manhã.

Existe um momento na vida em que não há caminhos para fugir. Ao contrário, nos é exigido crescer, fortificar. Meu momento chegou e nunca vi de forma mais clara. Não acredito que me é necessário reafirmar, romper meu coração privado e publicizar o que ele guarda. Mas tem algo que sugere que você merece e precisa disso.

Em palavra na internet, páginas vaidosas (tudo é vaidade) que a gente cria...Cheguei até aqui em mais um texto. Quantos textos perpassam nossas vidas. Quantos textos nos ligam. Em texto para público bem limitado, pois me falta tua simpatia, finalmente digo, sem semiótica, o que quero dizer: eu te amo. Eu realmente sei que te amo.


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Suspiro

Meu corpo cansado trato com respeito,
sei quando músculos e mente pedem arrego.
Para a alma afadigada até encontro jeito,
palavra e oração mostram o sossego.


Mas quando insisto em correr
e ignoro o alerta,
ao suspirar bem fundo, se refaz a descoberta:
ainda sou de carne e osso!





sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Le Ange

Ao chegar pela primeira vez na portaria da Unopar em 2008, enquanto Ronaldo, o funcionário responsável pelo ‘’cara crachá’’ me abordava, alguém se prontificou a me acompanhar até a sala de aula. De feição experiente e uma aparência inicial austera, a professora Leange já me desafiou a dar o meu melhor para a graduação durante este rápido caminho. Com a ingenuidade e a arrogância, confesso, de um calouro, respondi: ‘’também serei um dos melhores’’.



Uma certa promessa, uma certa dívida foi criada naquele momento. Garanto que nunca tive o desempenho integral em tudo que me foi solicitado, mas quando se tratava da Leange eu sempre procurava fazer jus à responsabilidade da qual ela me incumbiu. E que responsabilidade era esta? Não é tarefa muito simples explicar, pois há certas coisas que se subentendem e assim era a nossa cobrança. Leange nunca me cobrou nada diretamente, mas eu sempre soube o que ela esperava.


Figura altiva e até paradoxal. Ora objetiva e ácida, comportamento típico de gaúcha exemplar, ora cheia de piadas e descontração. Não eram piadas fáceis, sacadinhas de intelectual. Mas minha amiga Vivian gostava. Acho que ela gostava mesmo é de vê-la deixando a pose de durona.


Enfim, foram quatro anos contando com o apoio da Leange. Quem poderia imaginar que seria nosso privilégio. A última turma coordenada e também instruída por Leange Severo Alves. Meu sentimento, além da saudade, é de gratidão. Nesta relação professor-estudante, que tanto pode pender para a amizade, o companheirismo, quanto para o mal-estar, fui feliz. Recebi seus alertas quando necessários, os elogios quando merecidos e sua disposição em todo o tempo. Tempo este que me parece breve. Havia fôlego para muita obra ainda. Mas ao contrário do que nós jornalistas costumamos fazer, não questiono. Não questiono o irreversível, até mesmo por que tenho convicção de que ela não o faria.


Munida da mesma fé em Deus, passei a entender e valorizar mais o que aprendi com outra pessoa também bastante especial: não importa que a Leange não tenha nos visto completar o ciclo, que ela não tenha nos visto nos formar. Importa que ela tenha nos formado.


Quanto à promessa inicial... Ah se ela imaginasse o medo que passo agora que tudo é diferente! No entanto, por mais que tudo pareça nebuloso, acredito que cheguei lá. Entendi que não se tratava apenas de jornalismo. Tratava-se de ser reto, de ser íntegro e sobretudo, ser firme. Continuarei com firmeza e isto, com certeza, é o meu melhor.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

A aresta

Gosto de observar o céu pela janela do quarto em que guardo o computador. O quarto permite uma vista da zona sul da cidade e quando em vez, consigo ver os aviões pousando ou decolando. Este cantinho tem sido meu ambiente mais comum nestes dias de entregar o trabalho de conclusão de curso.

Hoje está chovendo bastante e alguns livros estão guardados bem embaixo da janela. A brisa está boa e eu quis teimar em deixar a janela aberta. Muita água entrando e não pude permitir que o material estragasse. Fechei metade da janela...Continuou entrando água. Deixei apenas uma aresta aberta, uma brechinha. Contra a luz, passei a observar respingos persistentes. Não muitos. Mas estavam entrando e em questão de tempo prejudicariam meus livros.

Numa analogia súbita e quase mágica, percebi: assim é a vida. Nos exige firmeza, exige fechar as coisas por completo. Por mais que o que esteja do lado de fora seja lindo e agradável, insistir em uma brecha pode comprometer algo igualmente importante, igualmente necessário.

domingo, 11 de setembro de 2011

Mais um soneto, outro retrato...3x4

Estava contando as moedas na minha carteira e alguns cartões caíram. Quando fui juntá-los, percebi uma capinha de fotos três por quatro. No instinto que é a curiosidade abri e lá estávamos nós, lado a lado. Olhos grandes e aquela expressão vazia que formamos para retratos como estes. Por coincidência, ambas as camisetas eram cinza e os rostos também mostravam mais juventude. Não pelo ânimo, força ou algo do tipo, apenas pelas feições mais imaturas. O telefone tocou, atendi. E lá se vão as três por quatro de volta para a carteira. Nós dois, lado a lado...

domingo, 4 de setembro de 2011

O céu...Os céus

"A lua vai estar cheia e no mesmo lugar". Foi assim que ela se despediu, se apropriando da canção. Exceto pela moça ao lado, que observava a outra em lágrimas e com escritos impressos em folha de sulfite, ninguém sabia que ela pensava na lua, no tempo, a dor de deixar algo novo e tão lindo, aquela poltrona de ônibus. Mas a lua estaria cheia e no mesmo lugar...

Uma nova parada, um telefonema. Benditos cartões telefônicos. Pena que as unidades vão tão rápido quando se liga para celular...Ah se não fosse a matrícula, o segundo ano, a volta. Ficar mais uma semaninha seria maravilhoso.  Mas um consolo tornou o resto da viagem mais tranquila, pelo telefone ela soube: "eu estava olhando para a lua e pensando forte em você quando a mensagem chegou".

A jovem não era mais a mesma. Algo muito grande estava começando naquele momento. O "te amo" tão audível e tão propício na hora de entrar no ônibus inaugurou a transformação: o amor chegou, impiedoso, com a beleza e a força do recente inverno. Coisa inesperada para um meio de ano.

O que ela não podia, e nem queria ter, era metade disso tudo. De fato ela não teve. As estações prosseguiram, a lua, tão feminina, prosseguiu com suas fases. O amor prosseguiu junto. Apesar de uma confusão ou outra, a moça se tornou mulher. Passou a planejar e desejar como mulher. Os olhos dela também contemplaram um rapaz se tornando homem. Os dois cresceram, ao menos era o que ela pensava.

Um ritual acompanhou o processo. Sem romantismo falso, sem romantismo barato:  sempre que se voltava ao céu, ela o enxergava e sempre que possível, compartilhava esta imagem. No entanto, quanto mistério, quanto revés. A lua cheia foi interrompida, minguou fora do lugar. E agora?

Em uma conversa muito íntima, ela me contou. De volta à mania de se apropriar da poesia alheia (já que ela deve ser de quem precisa e não de quem a faz), ela mencionou o trecho de um filme que tratava da história de um casal desfeito. "Às vezes, sozinho, ele olhando para o céu, pensava nela. E às vezes, sozinha, ela olhando para o céu, pensava nele. E assim, sem saber, os dois se relacionavam". Então, possa ser isso. Como no filme, mas ao contrário do que acontece em Chico, não é possível descartar a ação que não valeu, por mais que se queira.

Na cabeça dela há um universo, o universo paralelo e cruel do não saber. E ela realmente não sabe, mas talvez o céu dela seja de Ícaro e o dele de Galileu...Ou vice-versa.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Catarina de Bora

Catarina de Bora. Este nome forte sempre me ficou gravado desde que passei a circular pela região do aeroporto em Londrina. Talvez Catarina tenha sido alguém importante, cuja ignorância minha me priva de saber ou apenas uma senhora esposa de um dono de terras. Desconheço  a motivação da homenagem. Enfim, tenho bastante afeição pela zona leste e me senti feliz quando surgiu a oportunidade de não ir para muito longe ao precisar me mudar da Rua Graúna.


Os arredores do aeroporto me fazem lembrar de casa, a casa em Mato Grosso do Sul. Apesar do movimento grande e do comércio que se expande a cada dia, consigo respirar um quê de bairro tranquilo, uma sensação de que os vizinhos ainda se falam e se preocupam com os quintais e as calçadas. 


Foram três anos e meio bastante satisfatórios na Rua Graúna. Conheci, aprendi e dividi muita coisa por ali. O apartamento branco, ou melhor, "sulfite", como eu costumava chamá-lo, abrigou fases e histórias. Como as fases passam e as histórias se reinventam ou terminam, o apartamento da Catarina de Bora representa um novo ciclo.


Minha irmã vai se casar e prepara a casa para isto. Sei que Bruna se faz meu lar enquanto não termino o curso, que aliás, se finda daqui a três meses. Mas este clima de preparação gera um sentimento chatinho em mim. Uma espécie de carinho desapegado. É uma maneira que criei de estar pronta para uma nova partida.


Família e amigos já estiveram aqui. Sempre ressalvo como encontrei o apartamento. Estava dentro do 107-Aragarça quando voltava do trabalho e vi a placa de aluga-se. Para mim e para Bruna foi uma providência divina. Também comento como continuamos perto da Praça Nishinomyia, do supermercado, da feira, da quitanda, da padaria, da farmácia. Conto com mais itinerários e o ponto é bem em frente à portaria.


O acabamento do imóvel é mais sofisticado, assim como a iluminação. Mas há algo que insiste em andar pelos meus pensamentos: existe uma pessoa que não esteve aqui. Existe uma pessoa que não vai me ouvir durante uns passos pela quadra ao descrever todas as coisas interessantes daqui. Ela também não vai voltar para casa comigo depois de irmos ao centro de ônibus. Tampouco vai observar a maneira com que organizo meu quarto e limpo a cozinha. Ela não vai se sentar à mesa para o almoço, geralmente preparado por mim.


Além do carinho desapegado que já citei, por este motivo, a Catarina de Bora é marcada como a rua (ou a casa) que não aconteceu.


Nota: Descobri há pouco que Catarina de Bora foi a esposa de Martinho Lutero.




quarta-feira, 15 de junho de 2011

Fluidez

Lembro de uma agenda antiga com crônicas, poesias e outros rabiscos amadores, como maioria das coisas que faço. Mas a memória mais nítida é a de uma página com palavras que já adiantavam uma sensação futura. A sensação do futuro.
No texto, havia algo de "desligar-se do mundo", "pessoas robôs" e pensamentos sobre "o que já aconteceu e o que ainda está por vir". Expressões de tom tão pós-moderno e que continuam me incitando afinidade.

Novamente flagro minhas mãos construindo linhas incertas, no entanto, necessárias. Quando não se consegue dizer o que se quer, escrever com aquela semiótica particular é o escape para não trair a si mesmo. Escrever o que talvez só faz sentido a mim e, por ligeiramente ser exposto, satisfaz a vontade íntima, vaidosa de criar um quebra-cabeça.

Cabeça quebrada tem sido a minha. Ando com pouco sucesso no processo de colar. Coração cola cabeça que rasga coração que pica o corpo.

Feito a tríade dos signos (teoria insiste em me perseguir), eu me espalho em cabeça, coração e corpo. Por sua vez, eles se espalham em mim, em construção e desconstrução constante. Coisas que se acham e se perdem e se afundam no sentimento do futuro e a sensação pós-moderna que foi por onde comecei e...Onde eu estava mesmo?

Essa indagação retoma o sopro inicial. Sem muita lógica ou clareza, tenho outro ponto de partida. Onde eu estava mesmo? Não sei. Ao que parece, não estava presente.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Interatividade profunda

Gabriela diz:
A única coisa que tenho certeza nessa vida é que a primeira gaveta da cozinha sempre é de talheres..


hahhahahaha


Ana diz:nossa


profundo, heim?


gabi


quer saber? nem disso tenho certeza


depois de Deus, ñ estou certa de + NADA

quarta-feira, 13 de abril de 2011

410 - Vila Nova

Quando me mudei para Londrina, em 2008, tinha muita expectativa dentro da minha mala, toda a animação de um lugar novo. Meu primeiro desafio foi descobrir aonde eu iria estudar.



Na hora da matrícula, um espanto. Não era no Piza, não era próximo ao shopping...Onde este campus estaria localizado? Tudo que eu sabia é que eu devia chegar a uma tal de Vila Nova, mais especificamente na rua Tietê.


Pela internet, fiz contato com uma colega que eu imaginava ser da minha turma, mas não era. Não fez mal, a Tati bem que tentou. “Ah, você pega a rua que passa ao lado do terminal central e desce, desce, desce...”


Mesmo me sentindo um peixe fora d’água, estufei o peito e no auge da minha “confiança geográfica”, fui: não é possível que eu vá me perder. Em meio ao aglomerado feroz do terminal central, eu procurava uma bendita plaquinha: 410!


Só depois da minha teimosia de procurar por todo o piso superior do terminal fui ao balcão de informações e perguntei onde ficava o ponto. “É lá embaixo, moça”.


Escadas descidas, finalmente a santa plaquinha. O ônibus andou, andou e nada. Já estava preocupada quando tive coragem e perguntei para uma moça muito solícita ao meu lado. “Moça, esse ônibus passa na Unopar?”. Para o meu alívio, eu já estava no Residencial Tietê e ia descer no ponto seguinte.


Agora, ir para a Vila Nova é “fichinha”, como diria minha mãe. Só confesso que nem sempre é simples exercer a cordialidade, ou melhor, a civilidade quando o motorista está apressado e de mau humor. Mas, como uma filosofia de Big Brother: faz parte.


Eu até aprendi uns esquemas. Se você estiver muito atrasado e não puder esperar o ônibus via Tietê, desça no segundo ponto da Avenida Araguaia, logo depois do Banco do Brasil. Ah, o 411 – Jardim Paraíso também passa pela Araguaia. Aí é só descer á esquina que você já sai na Tietê. Só aviso que se você também é de fora, esse caminho pode ser meio nostálgico. Para mim é.


Quando vou andando, costumo reparar as casas da Vila. Elas têm uma carinha de lar...Sinto falta de morar numa rua parecida com essas. Casinhas de madeira, criançada brincando, senhoras varrendo a calçada. Eita, saudade!


As coisas são assim. Há tempo para tudo. Tempo de ir embora, de estudar, trabalhar. O meu tempo é sempre de correr, principalmente para não perder o ônibus!

domingo, 6 de março de 2011

Simples

Só uma vontade bem sincera: ouvir Deus.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

De onde vem?

-Bruna, cientificamente falando, porque nosso coração dói assim?
-Angústia, né?
-Não, eu sei...Cientificamente.
-Ah, Ana. Os fatores certos não sei te dizer. Sei que é uma dor mais psicológica do que física propriamente. Só senti isso uma vez.
-Quando?
-Quando eu perdi a prova da residência.
-Eu senti duas vezes. No velório do Tio Paco e agora.
-É...

domingo, 28 de novembro de 2010

Governo de Dilma Roussef deve rever pautas da reforma agrária

Presidente tem o desafio de gerir políticas públicas que ficaram em segundo plano no governo Lula segundo o MST

As discussões sobre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a Reforma Agrária, entendida como uma política nacional de desapropriação e redistribuição de terras sem função social (inativas, que não gerem renda e alimento), estão sendo retomadas após as eleições. Apesar de ações de grande porte neste sentido terem sido intensificadas na região norte durante o mandato de Lula, militantes do campesinato preferem optar uma postura austera em relação às expectativas durante a gestão de Dilma Roussef.


Em entrevista para a TV Uol, um dos idealizadores e membro da coordenação nacional do MST, João Pedro Stédile assumiu posição de autonomia no governo Dilma Roussef. “No que for feito e for bom para o povo, evidentemente, nós vamos apoiar, no que não for, vamos criticar”, pontuou.


Durante sua primeira coletiva como presidente eleita, Dilma Roussef afirmou não tratar o MST como “caso de polícia” e salientou não permitir “novos Eldorados dos Carajás”, referindo-se ao episódio de 17 de abril de 1996 em que 19 trabalhadores rurais foram assassinados pela Polícia Militar do Pará, sob o governo de Almir Gabriel (PSDB).


Ela também fez observações quanto à possíveis práticas do movimento frisando não compactuar com ocupações de prédios públicos e de propriedades agrícolas produtivas. Em relação à Reforma Agrária, Dilma salientou que o país tem “terras suficientes” e que é necessário “fazer uma revolução no campo, transformando agricultores em proprietários”. Segundo ela, estas ações são viabilizadas através de programas que gerem renda aos produtores.


Período Lula


Valdez Adriani Farias, procurador federal do instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) de Santa Catarina, em entrevista concedida ao Portal do MST www.mst.org.br avaliou que as condições de trabalho para os funcionários do Incra “melhoraram consideravelmente” através do aumento de orçamento destinado ao Instituto e da abertura de novos concursos públicos. Quanto à atuação de Lula sobre a Reforma, Farias comenta: “temos convicção que avançamos, mas não com a intensidade e com a qualidade que queríamos”.


Para ele, a abordagem não só econômica com ênfase na improdutividade, mas a nova política de fiscalização do Incra voltada ao cumprimento das leis trabalhistas e de responsabilidade ambiental é o avanço mais significativo durante a gestão de Lula. O procurador também comentou suas perspectivas para o governo Dilma: “No próximo período, uma área que deve merecer especial e destacada atenção é a que trata do desenvolvimento dos assentamentos [...] É preciso organizar a produção e articular as cadeias produtivas de forma a gerar renda para as famílias assentadas.”


Ocupações


Uma das políticas do MST referentes às desapropriações de terras realizadas pelo Incra são as ocupações de terras que perderam a função social. A intenção é pressionar a ação do poder público. O procedimento é polêmico e, geralmente, não é divulgado de maneira clara. Conheça alguns dos respaldos legais dos proprietários de terras ocupadas e de ocupantes.


O advogado Emerson de Oliveira Alves explica que no caso de desapropriações espontâneas, ou seja, acordadas entre proprietários e governo, o dono de terras recebe o valor de mercado de sua propriedade e das benfeitorias realizadas na mesma, como cercas e outras instalações. Caso o proprietário discorde do valor, ele pode recorrer judicialmente. Alves frisa que processos relacionados à desapropriação de terras não costumam demorar muito para serem concluídos por contarem com a concessão de liminares.


No caso de proprietários que não concordam com a proposta de desapropriação e exigem a desocupação de suas terras, o procedimento é a solicitação de reintegração de posse. Já para proprietários que não registraram de alguma maneira a ocupação de terras no período de 10 anos, o ocupante tem direito à propriedade pelo chamado “usucapião”.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

O absurdo

Um dia me liberto desta coisa chamada palavra...O absurdo de dizer, novamente.

domingo, 17 de outubro de 2010

Entre linhas de nada

Sempre quis contar uma história grandiosa. Uma história bonita, cheia de nostalgia e algo que fosse contagiante, assim como tanta coisa que eu gostava de ler quando era criança.

Chega a soar engraçado como as palavras de Rubem Braga me encantaram na sétima série. Um sentimento relatado de um jeito tão profundo. Vontade de abandonar o “ofício absurdo e vão de dizer coisas, dizer coisas” e “instaurar uma vida mais simples e sábia”.


Pois é. Eu não sabia que Rubem Braga era jornalista! Não sabia que um dia eu seguiria o mesmo passo e também não sabia que sentiria a mesma aflição do autor. Que será que estava acontecendo quando ele fez ‘’essas pequenas pilhas de palavras’’?

Correntemente me flagro com sentimento parecido e até arrisco umas impressões. Talvez o cronista estivesse num contexto confuso, obscuro como o em que estou agora.

Sinto-me num exílio. Minha correspondência é enderaçada a um grupo pequeno, poucos que querem saber de mim e do que digo. Exilada num país só meu, gritando e pedindo silêncio.

Peço silêncio àquela voz que quer se fazer uníssona, passando a impressão de que seu coro somos todos nós. Grito pelo que não deixo de ver e conhecer. Há tanta coisa para ser mostrada ao mundo. Tanto croma, tanta forma, tanta verdade.

Céus! Será que ainda consigo ecoar algo que perpasse o tempo? Não é necessário que seja muito tempo. Algum tempo que ajudasse a transformar, em vez de diluir e maquiar esse período em que governantes perdem a audácia, candidatos se contradizem, bradam bandeiras falsas de modo amoral e o povo se aliena com uma imprensa corrupta e que amordaça os não favoráveis aos seus interesses.

Ah, se eu pudesse me corresponder com o amigo Rubem...Talvez eu pedisse conselhos, perguntasse o que dizer, transcrevesse uma boa história. História parecida com as que sempre ouvi e procurei e não chegasse a estas linhas de...Nada.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Contradição despercebida

Mídia não debate as contraposições da campanha tucana no segundo turno


Confesso que meu ânimo não é dos maiores diante da idéia de escrever mais um artigo. Redigir qualquer coisa que faça uma certa lógica. Podem esculhambar este desânimo, eu deixo. Jornalista tem mais é que dizer mesmo, meter informação em todo lugar onde ela for necessária. Por favor, também não se assombrem com o vocabulário. Simplesmente resolvi fazer jus ao que tenho visto, ouvido, lido por aí.



Tanta incoerência me causa dores terríveis no estômago. Todavia, meu estômago não chega a ser problema. Problema é estarmos presenciando um atentado à democracia da pior espécie. Atentado velado.


Qualquer ser que pense, imploro, seja atento: espalhar correntes na internet satanizando posições favoráveis ao aborto e à união civil estável entre pessoas do mesmo sexo para depois pronunciar-se em rede nacional tão favorável quanto os outros partidos a este mesmo tipo de união, além de omitir a normatização do aborto em casos de estupro e risco à vida da mãe durante a atuação no Ministério da Saúde não é incoerência?


Fazer campanha senso comum, taxando brasileiros de palhaços bancadores de bolsas e prometer décimo terceiro para o Bolsa Família não é incoerência?


Dizer que o atual governo é censor e ser apoiado por um jornal que demitiu uma funcionária por manifestar sua opinião de forma honesta e aberta não é incoerência?


A dúvida é direito de todos e a considero saudável. O que não considero saudável é a conivência. Não podemos ser coniventes com candidato ou partido que faz alianças não assumidas. Que manipula e confunde discussões. Que aproveita da simplicidade de uma população para rotular seu voto.


Mesmo que os maiores veículos de comunicação se empenhem de forma tamanha em uma campanha que prefiro chamar de golpe, ainda não consigo deixar de dizer o que querem calar. Liberdade de imprensa é diferente de liberdade de expressão e ambas exigem responsabilidade.


Repito, a sensação de nadar contra a corrente faz com que pensemos em nada dizer. Faz a gente desacreditar em um mínimo de análise, um mínimo de crítica. Apesar de ter o fôlego abalado, a fé e a vontade de apresentar os fatos tais como eles são, relembram e cobram a verdadeira função do Jornalismo: informar com veracidade.


Neste segundo turno, me apanho numa inquietação. O que seria mais grave? Não explicitar o apoio e a opinião política dos veículos de comunicação fora de seus editoriais ou não debater a contradição da campanha tucana? Parece um jogo de tudo ou nada. As oligarquias têm e vêm com tudo, a democracia fica com o nada. Nada de pluralidade, nada de respeito, nada de ética.

*Também publicado em Observatório da Imprensa

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Nos solados do lucro

Jornalista está sempre preocupado em atender à sociedade. Apura, analisa, noticia. Jornalista sério expõe e instiga o que merece ser compartilhado, se faz voz de quem precisa dizer e de quem tenta esconder o que deve ser dito. Neste momento, nós jornalistas, necessitamos inverter esta lógica para continuar primando pela voz da sociedade. É nossa vez de gritar e esperamos não chegar ao ponto de rouquidão.

Recentemente, nossa formação foi subestimada. Retrocesso e violência a favor de poucos em detrimento de muitos. Mais uma vez, passamos por um processo que visa o fortalecimento de um sistema que empobrece e arrisca nossa profissão. Permitir a redução do piso salarial não significa um simples ato ‘’comercial’’, significa a precarização de uma função cujo objetivo jamais deve ser ignorado: servir ao interesse público com qualidade.

Qualidade implica ética e ética implica respeito. Portanto, exigimos que respeitem não só a dedicação  com que desempenhamos nosso trabalho, mas que respeitem uma categoria profissional. Somos trabalhadores e, se dispomos de direitos, queremos que os mesmos sejam garantidos.

Reduzir 40% do piso e permitir que o valor atual seja válido apenas na capital é menosprezar o trabalho e a população do interior.  É reafirmar uma política de preocupação meramente financeira e pouco comprometida com a emancipação social, isto sem entrarmos em detalhes sobre o banco de horas e redução do valor de hora extra, outros abusos que comprovam o desdém e o retrocesso nas gestões dos veículos de comunicação.

Jornalismo responsável precisa de condições para ser exercido. Portanto, ouçam e engrossem nosso coro: não pisem no nosso piso, não pisem na nossa luta.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

O repórter, o editor, a moça, a notícia

Dê-me notícias, disse o editor
aqui jaz um repórter
desfalecido de amor
Ele deu-lhe notícias
e nenhuma flor
Por carta chegou
uma manchete afinal
Ela enviou notícias
de um desfecho fatal
Dê-me notícias, pediu o editor
sem resposta do repórter
desfalecido de amor